segunda-feira, 11 de junho de 2012

Medo da morte

Descobri que o meu medo não é propriamente da morte, mas do abandono, da solidão, do desamparo. Quando bem pequeno, não me achava uma criança normal, falava sozinho até aos 8 anos de idade, isto me preocupava. Tinha dificuldade de me entrosar com as crianças da mesma faixa etária; tímido demais, não me soltava nas brincadeiras, ficava muito sozinho.  Preferia a convivência com os adultos, me sentia completamente despreparado para a competição com os meus pares, porque crianças da mesma idade, um não vai dar colher de chá para o outro. Cresci me sentindo despreparado para a vida, para a luta pela sobrevivência. Cresci com medo da vida, com medo de tomar decisões, com medo de fazer escolhas, com medo de dar uma simples opinião, com uma necessidade doentia de agradar aos outros, o que de certa forma tem-me travado na vida. Onde entra o medo da morte, o medo do abandono? - Pois bem, vamos lá.

Quando criança, umas das minhas preocupações era com a doença mental, até ouvia dos adultos da minha família que a pior doença era a da mente, se falava que fulano era nervoso, psiquiatra era médico de doido, um leve problema mental e a pessoa era retardada mental, era zombada na rua. Havia pessoas que viviam na rua, pareciam não ter família, eram consideradas loucas, e o clima era de zombaria e muito ignorância a respeito do assunto. Terapia para os problemas graves era com choque elétrico. Ouvia falar de um tio meu que não conheci, que ficou louco e não se soube mais notícia dele na família. Então, loucura pra mim era sinônimo de abandono, solidão, desamparo. Passei um longo tempo com medo de não ser uma pessoa normal, com medo de ser excluído do grupo, e as pessoas com problemas mentais na minha infância eram excluídas da sociedade. Não só os problemas mentais, mas o deficiente físico era aleijado, às vezes não se falava o nome da pessoa, mas o aleijado. O mundo pode não ter melhorado muito, mas nesse ponto melhorou, hoje se acolhe, se aceita o diferente.

Morte também tem a ver com abandono, exclusão da vida, solidão, desamparo; porque a gente morre sozinho e vai enfrentar o desconhecido. Existe o instinto de conservação da vida que nos faz temer a morte. Quando me lembrei dos loucos da minha infância e da falta de compreensão, de compaixão perante o diferente; quando me lembrei de uma sociedade preconceituosa e ignorante que exclui o diferente, relacionei o medo da morte ao medo do desamparo.

Mas Deus não nos desampara, tenhamos certeza disso. Embora muita coisa esteja acima da nossa capacidade de entendimento, oremos!

Que Jesus nos abençoe!

Macae, 09 de junho de 2012.

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